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Reflexões de fim de ano: temos de ser nós, cidadãos, a resgatar o futuro

Domingo, 31.12.17

 

 

Só podemos identificar o que podemos mudar e o que podemos melhorar na nossa vida, fazendo um balanço do ano que passou. A mudança e a melhoria vão depender dessa consciência.

A consciência humana é um universo complexo, tem a ver com o tempo e com as experiências. Mas também tem a ver com a atenção, a observação, a reflexão, a responsabilidade. Qualidades que hoje não são valorizadas :) Hoje o que conta é o que é visível, rápido, superficial e, se possível, tiver impacto.

 

Consciência, tempo e experiências: estou a utilizar consciência na sua dimensão mais ampla, não apenas o estado de alerta, o estado de vigília.

O tempo permite-nos distinguir experiências, a noção de causa e efeito, num determinado espaço. 

As experiências que no início são sensações agradáveis ou desagradáveis, começam a ligar-se às interacções com os mais próximos. A partir de certa altura alargar-se-ão a outros menos próximos. A qualidade dessas interacções pode determinar a nossa perspectiva da vida e do mundo, e o nosso próprio percurso.

 

A certa altura do nosso percurso, e se tivermos sorte, começamos a identificar o que é real (o que tinhamos observado e qualificado) e o que é ficção (o que foi programado culturalmente). E nessa altura que percebemos que chegámos a casa, sabemos quem somos, a nossa essência, nesse espaço-tempo. A nossa consciência ganha consistência e claridade, fazemos as nossas escolhas de forma mais fácil, desenhamos o nosso futuro de forma natural.

Também sentimos que a nossa consciência se expande, o mundo, que sabemos complexo, começa a tornar-se compreensível, embora dolorosamente sofredor. O sofrimento que desejaríamos evitar já não nos deixa paralisados, dá-nos vontade de agir.

 

 

A possibilidade de prevenir situações de perigo e de sofrimento é uma das responsabilidades das lideranças políticas. Mas vemos como são elas próprias a causar instabilidade, violência e sofrimento. Estas lideranças não são apenas irresponsáveis, são o nosso pior inimigo. Digamos que podemos mesmo dizer que a maioria das lideranças políticas, a ocidente, a oriente, a norte e a sul, estão a governar contra as suas próprias populações. É triste, mas é assim. Vemos Trump criar mais instabilidade no médio oriente. Vemos Aung San Suu Kyi revelar o seu retrato Dorian Gray. Vemos o sofrimento na Síria, no Iémen, os refugiados a multiplicar-se num planeta a morrer lentamente. Sabemos que o que fizermos hoje pode determinar a possibilidade de um futuro para as próximas gerações, mas deixamos que estas lideranças políticas, económicas e financeiras destruam esse futuro à nossa frente.

 

Este ano isso ficou visível no nosso país. São dois planos paralelos que nunca se encontram: a ficção (o plano onde vive a maioria dos políticos) e a realidade (onde vive a maioria dos cidadãos). É por isso que eles não sabem lidar com a realidade, nem preveni-la, nem minimizar os danos, nem remediá-los depois. Numa linguagem mais crua, podemos mesmo dizer que privilegiam a ficção porque alimenta a sua vaidade (Eurogrupo ao serviço de Bruxelas, ratings de agências ao serviço da grande finança, sondagens com oportunidades tácticas). Claro que esta escolha (e sempre foi esta a escolha dos governos desde o socrático), faz-se sob falsos pretextos, o fim da austeridade, o equilíbrio social e a redução das desigualdades, criando equívocos com consequências terríveis.

Mas como eles nunca sentem as consequências na pele, não se espere que mudem a sua cultura política. A proposta de lei do financiamento dos partidos tira-nos qualquer réstea de ilusão. Foi assim que escolheram acabar o ano, a tratar da sua caixa registadora :)   

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:29

A arte revela-nos a realidade

Quinta-feira, 03.11.16

 

A arte pode servir como propaganda do poder. Historicamente podemos constatá-lo na arte financiada pelos ricos e poderosos. Hoje ainda se mantém esta lógica, como se a arte vivesse de subsídios ou mecenato.

 

A arte hoje já não é a arte do objecto, já não é a arte enfiada em museus. A arte hoje saiu de um espaço-tempo limitado e libertou-se de uma etiqueta descritiva.

A arte é uma verdade universal, uma ideia, um desafio, acessível a todos. Podemos olhar para um desenho, um quadro, uma fotografia, ou ver um filme, ou ouvir uma peça musical, sem ir a um museu, a uma biblioteca, a um cinema ou a um concerto.

Mais, podemos produzir arte com novos instrumentos, nas paredes das cidades, nas ruínas de prédios desabitados, em espaços públicos.

A arte pode durar apenas uma noite, em lazer luminoso. Não deixar vestígios físicos, apenas impressões mentais e emocionais.

 

Uma arte esquecida, e agora reabilitada, é a arte popular, a arte que revela a cultura, as crenças e o modo de viver de populações, de comunidades.

Vemo-la, magnífica e exuberante, em capelas e igrejas. A complexidade do trabalho em pedra, da talha dourada, do mobiliário antigo. Sentimo-la nos temas musicais, nas vozes nasaladas, nos sons familiares do bombo, da flauta, do adufe, do cavaquinho.

 

E depois há a arte da consciência, a arte que intervém, que acorda, que abana, que mostra o que se passa por detrás da fachada, das palavras, do teatro político, em que o artista segue a sua própria consciência e preza a sua independência.

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:22

As novas gerações e a colaboração

Terça-feira, 02.06.15

 

Ouvi recentemente Daniel Oliveira dizer, numa entrevista num telejornal matinal da SicNotícias, onde apresentava o seu livro de selecção de crónicas no Expresso, que os melhores dos melhores da nova geração são muito melhores do que os melhores dos melhores da sua geração. Concordo. E acrescento: e muito melhores do que os melhores dos melhores da minha geração. (De referir que o que captou a minha atenção para acompanhar a entrevista foi o título inspirado do livro: "A Década dos Psicopatas".)


Um simples exemplo da atitude consciente e responsável desses melhores dos melhores da nova geração verificou-se no Nepal logo após o terrível sismo. A minha frase favorita: "We had the money, two arms, one brain..." E felizmente as redes sociais responderam.

Além da consciência e responsabilidade, há neles uma frescura, uma simplicidade e autenticidade que não vejo realmente na generalidade das pessoas das gerações de 80 e 90 (considerei a década em que iniciaram a sua vida activa). 

Estas qualidades, aliadas a uma inteligência prática e à utilização das redes sociais, pode concretizar muito mais e melhor do que a ajuda oficial sujeita a atrasos por motivos tantas vezes mesquinhos. E Isto dá-nos esperança para um futuro que vislumbramos incerto.


Por coincidência, a música com que finalizou hoje o programa "O Amor é" na Antena1, vibra na mesma onda da frase que destaquei lá em cima: "... tínhamos o dinheiro, dois braços, um cérebro..."

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:26

A verdadeira ironia

Quarta-feira, 14.01.15

 

Do Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, António Morais Silva, Editorial Confluência, 6ª edição: Ironia = Forma de interrogação outrora empregada por Sócrates em relação aos sofistas e que consistia em levá-los a contradições sucessivas para os convencer dos seus erros. // Sarcasmo em que se diz o contrário do que se que dizer e em que só pelo tom se reconhece a insinceridade das palavras. // Aquilo que apresenta contraste frisante com o que logicamente devia ser.


A verdadeira ironia desta tragédia recente em França é que os auto-intitulados "libertários", isto é, os que defendem a "liberdade acima de tudo", estão a contribuir activamente, e sem disso terem sequer consciência, para a limitação da liberdade na Europa.

E comparar a sátira agressiva (já vou explicar porque a considero assim) com o jornalismo de investigação ou com a reportagem de guerra que tornam visíveis as mortes anónimas diárias, não é compreensível.


Causar a morte de outro é o mesmo crime, não é isso que está aqui em causa.

O que está aqui em causa é a violência, a sua necessidade, a construção social de "inimigos", a alucinação de "inimigos", seja em nome da laicidade "libertária", seja em nome do fundamentalismo religioso, seja em nome do pragmatismo financeiro.


A violência e o ódio ateiam-se de várias formas, com palavras, com imagens, com armas.

Reparem que não encontramos a palavra "inimigo" apenas nos discursos inflamados dos fundamentalistas. A palavra "inimigo" surge com preocupante frequência nos discursos de políticos ocidentais, da esquerda à direita.


Tudo o que dizemos ou calamos, tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, tem consequências. Primeiro estamos sensíveis à nossa própria experiência, seja agradável ou desagradável. A pouco e pouco aprendemos a ver e a sentir as experiências dos outros e a sentir o que os outros estão a sentir porque já o sentimos. É  a partir desta experiência que surge a consciência. E é a partir desta experiência que surge a responsabilidade.


A verdadeira ironia, a meu ver, é esta contradição humana: em nome do que se acredita (ou se diz acreditar) provocar exactamente o contrário.

Os defensores da "liberdade acima de tudo" estão a contribuir para um caminho securitário e limitador da liberdade (veja-se o que aconteceu depois do 11 de Setembro).

E os defensores da "vida", da "segurança", da "tranquilidade", da "tolerância", estão a contribuir para o aumento das divisões, fracturas e violência.

Como? Deixando-se embalar por palavras, imagens e ideologias que trazem em si mesmas a violência, a fractura, o ódio, a humilhação de outros.

Defender a vida e a liberdade é ter consciência das consequências das nossas palavras, atitudes, comportamento. Defender a vida e a liberdade é defender a paz e rejeitar todo o tipo de violência


A verdadeira ironia está de olhos abertos a olhar para dentro de nós e para o mundo. Pode ser directa e cruel, mas nunca apela à violência, nunca humilha. Pelo contrário, confere-nos o poder de nos sentirmos vivos, conscientes e unidos.

A verdadeira ironia traz em si mesma a capacidade de aceitarmos a nossa fragilidade e as nossas contradições. A verdadeira ironia une-nos a todos na nossa humanidade.

 

 

Também senti a crueldade da ironia neste início de ano: afinal comecei a falar da possibilidade da Europa se abrir e conseguir receber refugiados e emigrantes, e dias depois o futuro da Europa vai pender para o caminho inverso.

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:23

A vida na Terra

Domingo, 22.09.13

 

Poderão achar estranho escolher o dia das eleições alemãs para me despedir d' As Coisas Essenciais. Bem, as coisas essenciais permanecem connosco pela vida fora. Como aqui ao lado podem constatar, nas palavras-chave, dediquei aqui posts a: vida, afectos, amor, amizade, autonomia, liberdade, responsabilidade, verdade, blogosfera, cidadãos, música, cinema, ... 

 

As coisas eseenciais variam conforme a consciência de cada um, e a consciência de cada um depende da cultura e subculturas e das suas experiências, interacções, oportunidades.

Podemos, no entanto, encontrar coincidências na lista das coisas essenciais que são comuns à generalidade das pessoas: saúde, afectos, alegria, convívio social, integração social, segurança, etc.

 

A cultura dominante actual coloca algum ênfase nas coisas como objectos, exteriores à consciência - dinheiro e o que se pode obter -, ou na aprovação social - fama, sucesso, estatuto, poder. É o que vemos circular cada vez mais nos media actuais, apesar da evidência desta cultura estar em profunda contradição com as novas capacidades para enfrentar os desafios que nos esperam. Desenham-se novas culturas paralelas à cultura dominante, a nossa incrível capacidade de adaptação. Se tudo correr bem, os choques culturais que se avizinham serão amortecidos por esta adaptabilidade e criatividade da consciência.

 

Tudo isto para vos dizer, queridos Viajantes que por aqui têm passado, que este dia é um sinal de alarme para a Europa e para os países do sul. Sim, também falei aqui em sinais de alarme. A cultura metálica do pragmatismo dos negócios e das finanças está a sobrepor-se há muito na Europa a uma cultura de convívio saudável, de equilíbrio desejável entre os estados-membros. Vimos desrespeitar Tratados e Acordos, saltar Referendos, calar a voz dos cidadãos (há muitas formas de os calar, sabiam?, perguntem aos media, basta repetir o que lhes dão a mastigar e a ruminar todos os dias).

Qual a resposta mais saudável e eficaz a esta cultura bárbara do poder do mais forte sobre o mais fraco? Usar a consciência, os neurónios, o bom senso, na pequena margem de liberdade que ainda nos resta. Usar o talento natural de cada um numa tarefa comum. Comunidades que se expandem, que ultrapassam fronteiras, limites. Trocar informação útil para todos. Criar, construir, unir, animar e reanimar.

 

Continuarei a navegar no Rio sem Regresso, o meu primeiro espaço na blogosfera e de que nunca consegui afastar-me muito tempo. Nesse rio a vida é revelada através do cinema. Gostaria de agradecer ao Sapo por tê-lo acarinhado desde o início, e ao Pedro Correia, primeiro através d' A Melhor Década do Cinema no Corta-Fitas e depois no Delito de Opinião. Lembro aqui ainda João Carvalho, um dos mais amáveis bloggers que encontrei na blogosfera, a cultura da amabilidade.

 

Podem continuar a acompanhar-me no espaço iniciado recentemente, A Vida na Terra, onde procuro lembrar e celebrar o facto de habitarmos este maravilhoso planeta e a oportunidade de aprender a conhecê-lo melhor e às restantes criaturas e espécies. 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:29

Voltei aqui para me lembrar...

Quarta-feira, 25.04.12

 

Voltei hoje aqui para me lembrar de alguém que sempre me surgiu como um D. Quixote, tão poético na sua grande candura e convicção... 

No meio desta confusão global, desta insanidade global, ver pessoas assim que seguem a sua bússula interior e se mantêm seguros nesse fio condutor de uma ideia, de um sonho, era uma espécie de atenuante para tudo o que se iniciou nesta data concreta, há precisamente 38 anos. Talvez com ele tenham desaparecido todas as atenuantes, já não há mais...


Miguel Portas escapava completamente à minha percepção das pessoas de esquerda, percepção baseada na atitude e acções das chamadas pessoas de esquerda que fui observando e acompanhando ao longo destes 38 anos. Era um autêntico idealista, em todas as moléculas da sua alma. E assim vai permanecer na grande lógica deste universo tão estranho e maravilhoso em que somos apenas pequenas partículas em movimento.

Um viajante que gostava de comunicar e partilhar experiências, mais próximo de uma personagem de filme do que pessoa concreta, quotidiana. Por mais estranho que nos parecesse o cenário, vemo-lo sempre à vontade, perfeitamente adaptado. Pessoas assim vêm lembrar-nos a nossa natureza e vocação universal. Irmanamo-nos com toda a humanidade, com todas as pessoas simples, por mais longínquas que estejam no atlas aproximamo-nos no essencial.


 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:03

A mudança não virá do sistema nem da rua... mas das consciências

Segunda-feira, 28.02.11

 

Esta reflexão sobre a mudança inevitável vem na sequência da anterior: o sistema está a reorganizar-se. E baseia-se igualmente em deduções. 

Como é óbvio, a mudança não virá do próprio sistema, até porque o sistema se está a preparar para neutralizar todo e qualquer movimento que possa perturbar o seu equilíbrio e estabilidade. Como? Há muitas formas.

Se ontem ouviram o Professor Marcelo a comentar a possível manifestação de jovens descontentes a 12 de Março, podem já perceber uma das formas, perfeitamente enquadrada na lógica corporativa do sistema: Quem são eles? São essencialmente jovens... licenciados... desempregados... ou em estágio... um é ex-JS outra ex-BE... Descontentes... querem fazer parte da solução... Como é? Querem formar um partido?, um movimento?, uma associação?

Esta é a lógica corporativa: identificar os descontentes, perceber o que querem, para os tentar absorver no sistema, se possível, e assim neutralizar. Senão vejamos: Lembram-se quando surgiu o PRD com 18%, era muita gente descontente, mas logo a seguir Cavaco Silva conseguiu absorver esses descontentes para o PSD... não sei se repararam mas o Professor Marcelo imitou o ruído de quem suga por uma palhinha... os votos dessa gente toda. Referiu-se a mais alguém que sugou os votos de mais gente descontente, mas já não me lembro.

 

Sim, é até muito possível que o sistema consiga sugar, absorver e neutralizar o descontentamento dos jovens, até porque os próprios foram formatados na cultura corporativa. O discurso da mudança não pode ser corporativo: uma geração, direita, esquerda, uma profissão, uma camada social, etc. etc. O discurso da mudança é universal, abrange todos os cidadãos. 

 

Também tenho meditado muito nisto: estes movimentos de rua, já em desespero, onde podem levar? Estou convicta que as verdadeiras revoluções são interiores e discretas. Qualquer mudança consistente e consequente tem de se basear numa nova perspectiva e numa nova atitude de cada cidadão. Sim, a verdadeira mudança é interior, na consciência de cada um.

 

E no entanto... o primeiro sinal da mudança possível veio de um encontro feliz entre o Papa e o povo português. Poucos viram essa confirmação cristã de uma cultura milenar. Poucos valorizaram a profundidade do encontro. Mas nada ficou na mesma: o Papa reencontrou a sua energia vital, e a sua liderança na comunidade cristã ganhou um novo fôlego; nós reencontrámo-nos com a nossa raíz cultural cristã, de valores sólidos e duradouros.

 

Muitos foram os anos de domínio e de fracturas e machadadas culturais, muitos foram os anos de descaracterização e desertificação territorial que ainda continua, muitos foram os anos de artificialismos e pedagogias do ódio, muitos foram os anos de desprezo por tudo o que é verdadeiro e genuíno na nossa cultura cristã, mas esse encontro veio confirmar que a chama original está viva.

 

Somos essencialmente cristãos nos valores e na atitude. Somos comunitários. Somos afectivos e generosos. E se nos tornámos desconfiados do poder, tivemos boas razões para isso: falam outra linguagem, outra cultura, que nos tentaram impor por mais de dois séculos, uma cultura materialista, fria, impessoal, baseada em leis e em contorcionismos artificiais para proteger os seus membros. Trata-se de uma organização que se colocou indevidamente e ilegitimamente no patamar do poder político, social, económico e cultural.

 

A partir do momento em que nos reencontramos com a nossa verdadeira natureza, adquirimos uma nova energia vital, deixamos de nos sentir isolados e vulneráveis, sabemos quem realmente somos, essa é a nossa força. A da consciência. A dos valores. E essa é a mudança possível, a restauração da nossa cultura essencial, das nossas raízes cristãs, da nossa cultura comunitária da amabilidade e da universalidade.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:52

"A Canção de Natal" de Charles Dickens é muito actual

Quinta-feira, 10.12.09

 

Pensava eu que as gerações melhoravam naturalmente da anterior para a seguinte, que partiam de valores dos avós e dos pais e elevavam ainda mais a consciência.

Descubro agora, com total perplexidade, que não é assim. Uma geração inteligente e empreendedora pode produzir uma geração mesquinha e medíocre. Mesquinhez e mediocridade que estão geralmente relacionadas com a ganância e a falta de escrúpulos.

 

Também a inteligência pode decrescer de geração para geração, foi também isso que descobri recentemente e com total perplexidade.

Às vezes pergunto-me se essas gerações que nos precederam se orgulhariam dos seus descendentes e, se os pudessem ver, o que lhes diriam. É um exercício muito esclarecedor.  Mas talvez a vida seja generosa nessa impossibilidade muito prática: poupar essas gerações à visão aterradora da sua descendência.

 

Estas recentes descobertas levaram-me até Charles Dickens e A Canção de Natal. Charles Dickens é um autor que volta a estar tristemente actual. Scrooge apenas tem olhos de avaliador e de oportunista, perdeu a alma em qualquer sítio e a alegria também.

Na cabeça deve ter apenas duas colunas de números, em que o haver deve suplantar em muito, muitíssimo, o dever, em que não há lugar para a bondade genuína, os afectos genuínos.

 

N' A Canção de Natal Scrooge tem uma última oportunidade, anunciada pelo fantasma do seu sócio: três Espíritos irão suceder-se noite após noite até à noite de Natal.

O primeiro é o Espírito do Natal do Passado. Anos em que Scrooge escolheu ser a pessoa que é agora, perdendo com essa escolha o amor da sua vida.

O segundo é o Espírito do Natal Presente. Scrooge percebe que o amor, a alegria e a gratidão enchem a casa pobre do seu empregado, que ele tão maltrata, comovendo-se com a bengala na cadeira do pequeno Tiny Tim.

O terceiro é o Espírito do Natal Futuro. Scrooge vê o seu próprio velório e o saque a que a casa fica exposta. Mas o pior é o pequeno aleijado, o Tiny Tim, que não resistirá a esse Natal.

 

Scrooge tem esta última oportunidade, de acordar e de se libertar das suas próprias limitações. Muda da noite para o dia, literalmente.

Será um novo Scrooge a festejar o Natal.

 

Na verdade, uma consciência fechada sobre si própria e o seu pequeno mundo, dificilmente dará assim um salto que, para si, seria quântico: abrir-se e libertar-se das suas próprias limitações. A palavra destino aplica-se aqui, no sentido de natureza a que não pode escapar. Talvez seja assim, o destino de cada um revela-se na forma como vive, nas suas motivações essenciais, como trata os que o rodeiam: o que fica da sua passagem breve por este mundo.

 

É por isso que gosto tanto deste conto de Charles Dickens! E é também por isso que o melhor filme de Natal é, ainda para mim, Do Céu Caiu uma Estrela (It's a Wonderful Life). Se repararem bem, são muito parecidos.

A única diferença é que n' A Canção de Natal Scrooge eleva a consciência e no Do Céu Caiu uma Estrela o homem percebe que a sua dedicação e generosidade valeram a pena.

E isso é verdadeiramente gratificante: o homem que se dedicara à comunidade, comprometendo, pelo bem comum, os seus sonhos pessoais, e deixando para trás o seu direito de melhorar a sua vida e da própria família, descobre que tudo isso valeu a pena.

Só mesmo Frank Capra, o idealista, para nos mostrar que as nossas escolhas são fundamentais, podem perder-nos (porque perder o contacto com a alma é o pior que nos pode acontecer) ou podem salvar-nos.

 

 

Leitura relacionada: Do inspirado blogue Saudades do Futuro, este texto, Portugal Estéril.

  

E ainda: Desta vez do blogue Golpe de Estado, este texto de análise filosófica, política e social, Democracia-cristã, Socialismo e Objectivismo.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 08:24

...

Terça-feira, 26.05.09

 

 

Eu sou essa noite misteriosa

A alma acesa

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:54

Do Baú:

Sexta-feira, 27.03.09

 

                                        

 

                                          Um pouco de infinito

 

 

Por vezes perguntava-me porquê. Porquê aquele súbito entrever de um sentimento muito mais profudo, muito mais forte, mas tão fugidio, tão impenetrável! Vislumbrava-o apenas e já se esfumava, como se tivesse sido uma ilusão.

Mas não era. E eu sabia. Sentia-o ainda em mim, em todo o meu ser. Permanecia ainda a sensação de que algo de maravilhoso me penetrara, percorrera milhões de vezes a minha vida num segundo, nem tanto. E se fora.

Sentia ainda em mim a beleza desse momento vivo. Era como se tivesse compreendido de repente quem era, o que fazia ali, porque e como a vida se desenrolava entre tantas outras vidas, aparentemente desencontradas, aparentemente sem sentido. 

Parecia magia, mas não era! Era uma certeza tão sólida como todas as outras. Era como um elo entre mim e o universo, leve cumplicidade de ter encontrado, num relâmpago, o que me unia com o que até aí me parecera incongruente. 

Mas como explicar o que sentia nesses momentos? Como a linguagem é limitada! Mas como também é desnecessária!

Não sei agora, depois de tudo passar... É como se tivesse de novo regressado do infinito. Para de novo voltar.

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:09








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